3 de abril de 2017

POR QUE NÃO TEMOS LEMBRANÇAS DOS PRIMEIROS ANOS DE VIDA

Qual é a primeira lembrança que você tem da sua vida? Provavelmente as recordações são de quando você tinha 3 ou 4 anos, no máximo. Por que não costumamos nos lembrar do que aconteceu no início de nossas vidas?

O fenômeno tem nome: amnésia infantil. "Nenhum de nós se lembra de algo anterior aos 2 ou 3 anos de idade. A maioria não se recorda de nada que ocorreu antes dos 4 ou 5", diz Catherine Loveday, da Universidade de Westminster, no Reino Unido.

A idade média de nossas primeiras recordações é 3 anos e 4 meses, mas, como Loveday destaca, há quem possa se lembrar de eventos anteriores. Afinal, uma criança de 2 anos de idade pode reconhecer pessoas e lugares (e isso requer memória).

Mas, no caso acima, estamos falando da memória episódica, relacionada a acontecimentos autobiográficos - momentos, locais, emoções e outros dados de contexto - que podem ser evocados explicitamente. 

Curva do esquecimento
Para explorar como nos recordamos, pode ser uma boa ideia começar pela forma como esquecemos. No final do século 19, o alemão Herman Ebbinghaus, pioneiro no estudo da memória, inventou experimentos para testar o episódio.
Primeiro, aprendeu centenas de listas de palavras sem sentido. Depois, mediu quanto tempo levava para voltar a aprender as listas após períodos de tempo que iam de 20 minutos a um mês.

Assim, ele chegou à conclusão de que nos esquecemos de forma totalmente previsível. A "curva do esquecimento" - batizada por ele - é exponencial: nos esquecemos mais intensamente de início e, depois, o processo se atenua. A ideia é que não codificamos uma memória antes de ter um conceito linguístico para cada dado específico.

Além disso, hoje sabemos que a região do cérebro conhecida como hipocampo é chave para codificar e armazenar a memória episódica, e o hipocampo não amadurece até uma fase posterior da infância. Tudo isso afeta a capacidade do cérebro de reter essas primeiras recordações.

Mas como explicar as memórias anteriores a essa idade? "Minha memória mais antiga é de mim acordando no berço. Posso ver as cortinas amarelas e ouvir alguém no quarto ao lado fazendo barulho com água. A casa em que estou é uma da qual nos mudamos quando tinha dois anos, então, devo ter essa idade", contou 

Vickey Swindales, em um projeto realizado pela BBC há alguns anos, com 6,5 mil pessoas. Em "A Experiência da Memória", os participantes responderam a um questionário do psicólogo Martin Conway, da City University of London, no Reino Unido, em que era pedido que descrevessem sua primeira lembrança e respondessem a outras perguntas, como a idade em que o fato ocorreu.

Cerca de 40% dos participantes relataram lembranças de acontecimentos ocorridos quando tinham 24 meses, e 861 pessoas mencionaram memórias adquiridas antes de completarem 1 ano de vida. 
O psicólogo diz que há até mesmo quem diga se lembrar de seu nascimento. Mas ele esclarece que isso não é possível.

"Uma pessoa pode se lembrar de fragmentos da infância porque sua mãe disse algo como: 'Não se lembra que eu te levava para passear em um carrinho grande e verde?'. E a pessoa 'lembra' disso", diz Conway.

"Mas o que ocorre é que a pessoa cria uma imagem mental do carrinho, e, aos poucos, isso se transforma em algo que você experimenta como uma memória, baseado no que a mãe disse e algum outro fragmento de memória."
São as chamadas "memórias fictícias". No entanto, Conway esclarece que "não podemos ter certeza de que essas memórias sejam falsas: não podemos descartar casos excepcionais. Mas, no geral, a probabilidade é muito alta de que não sejam verdadeiras".

Não só na infância
Isso não quer dizer que as pessoas que dizem se lembrar de fatos do início de suas vidas estejam mentindo: alguns elementos de nossa memória são verdadeiros, mas é muito possível que tenhamos acrescentado informações ao longo de nossas vidas.

Muitos de nós nos recordamos claramente de experiências com pessoas que não podiam estar presentes em determinados momentos. Ou temos certeza de que algo ocorreu para depois nos darmos conta do contrário. "Isso acontece com todo mundo", diz Loveday.

Não podemos confiar em nossa memória? Em termos gerais, podemos, como em aspectos ligados a onde vivemos e o que aconteceu. Mas, quando nos lembramos de momentos muito específicos, é inevitável que haja detalhes que não sejam 100% precisos.
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