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30 de julho de 2015

LEITORES IGNORAM QUE EXUPÉRY VAI ALÉM DO "PEQUENO PRÍNCIPE"

O dia 31 de julho marca o desaparecimento de Antoine Saint-Exupéry, que teve seu avião abatido por alemães enquanto fazia uma missão de reconhecimento em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. Mais do que autor de "O Pequeno Príncipe", cuja adaptação para os cinemas chega ao país em meados de agosto, o francês é dono de uma obra respeitável, porém sufocada pelo seu clássico infanto-juvenil.
Mônica Cristina Corrêa, pós-doutora em Literatura Comparada Brasil-França, ligada à Succession et Fondation Saint-Exupéry e que desde 2005 se dedica a estudos sobre o autor, diz que, ao se aterem ao clássico absoluto de Saint-Exupéry, as pessoas perdem a oportunidade de conhecer o autor em si. "Muitos leitores se limitaram a repetir trechos do 'Pequeno Príncipe' como clichês de cartões de aniversário e não se deram a oportunidade de conhecer o piloto pioneiro. Menos ainda, o piloto militar que morreu pela França, que se deixou imolar por seu país... É lamentável, mas é consequência do mundo em que vivemos, no qual o 'produto' se sobrepõe a tudo".
Todos os livros do escritor dialogam fortemente com seu ofício de aviador, em uma época na qual guiar um avião era algo de extrema periculosidade. Cruzando os céus, Saint-Exupéry foi o responsável pelo correio entre a França e suas colônias na África. Também viveu dois anos no deserto do Marrocos, onde precisava dissuadir rebeldes a cessarem com os sequestros de outros pilotos franceses. "Seu dom para a comunicação fez dele um homem rapidamente estimado pelos árabes e possibilitou que salvasse alguns camaradas", pontua a pesquisadora. Em seguida, o francês se tornou piloto militar.
Essa experiência está presente em seis de seus títulos, "Correio do Sul" (1929), "Voo Noturno" (1931), "Terra dos Homens" (1939), "Piloto de Guerra" (1942), "Carta a um Refém" (1943), e, claro, "O Pequeno Príncipe", também de 1943, e em alguns outros textos e contos. A exceção à regra é "Cidadela", publicado postumamente. "Não se trata simplesmente de falar dos aviões ou da profissão: Saint-Exupéry diz que o avião, para ele, é 'uma ferramenta' e não uma 'finalidade'. Ou seja: é o meio que lhe permite observar a vida – e literalmente do alto", diz Mônica, que também é tradutora das novas edições de "O Pequeno Príncipe" e "Piloto de Guerra" que serão lançadas pela Cia. das Letras.
A especialista lembra que o autor afirmou em uma entrevista: "Tenho horror da literatura pela literatura. Por ter vivido ardentemente, pude escrever fatos concretos. Foi meu ofício que determinou meu dever de escritor", o que escancara como todos os seus livros refletem suas próprias experiências.
"'O Pequeno Príncipe' foi transformado num produto"
Mônica lamenta que o restante dos livros de Saint-Exupéry seja praticamente sobrepujado pela história do pequeno aviador perdido em um deserto. Segundo ela, isso acaba por simplificar e banalizar a vida e a obra do autor e diminui o próprio "O Pequeno Príncipe", que, recortado e afastado dos outros títulos, perde muito de sua riqueza.
"É claro que uma obra pode e deve ser lida como texto independente e cada leitor terá seu momento e sua interpretação. Mas o 'O Pequeno Príncipe', por ter sido o último livro escrito por um autor do quilate de Saint-Exupéry, mereceria uma leitura mais aprofundada e que conduzisse ao universo específico e maravilhoso de seu criador. Isso não acontece. São suas frases que viraram clichês, muitas vezes através de traduções únicas e pouco ligadas ao original, desenhos que viraram produtos de consumo, fantasias que desviam de um profundo senso de reflexão e de filosofia que o livro efetivamente tem".
Saint-Exupéry não conheceu todo o sucesso de sua obra mais famosa. Depois de publicar "O Pequeno Príncipe" em 1943, em Nova York, o autor embarcou para a guerra que o vitimaria antes que o livro infanto-juvenil chegasse à França, em 1946. Em vida, o escritor foi reconhecido, e inclusive premiado, por tudo o que precedeu o título que agora vira filme, chegando a ser o francês mais lido nos Estados Unidos naquela época. "Para quem lê apenas 'O Pequeno Príncipe', sinceramente, Saint-Exupéry, em toda a sua grandeza, inexiste. Há nos dias de hoje quem leia a obra e nem saiba quem a escreveu", diz Mônica. "Mas talvez essa também seja a função de uma obra, imortalizar uma ideia e não um homem", completa.
(Uol)
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