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21 de julho de 2014

AO SITE MASSAPÊ INDO E VOLTANDO: ABENÇA, MARIA FUMAÇA!

A construção da ferrovia na então província Ceará teve início no Brasil Império, final do século XIX, implantada com o suor dos flagelados da seca de 1877 a troco de pão e água, e em alguns casos com mão de obra escrava, servindo de transporte de passageiros e escoamento da produção algodoeira. Na verdade era a única modalidade de transporte disponível, pois, inexistiam as estradas de rodagens como hoje conhecemos e que foram construídas margeando a ferrovia e não de forma transversal com o objetivo de integração e desenvolvimento regional. A ferrovia foi estratégica em várias cidades do interior do Ceará, que foi colonizado por caravanas de tropeiros e criadores de gado que faziam pousadas nas fazendas e currais, ao contrário da civilização norte-americana que seguia acompanhando a linha do trem. Naquela época a tecnologia disponível era o lombo do burro, a cangalha do jumento, o estrado da mula ou a carroça e carros de boi, quando existia uma Estrada Real. Inaugurada em 31 de dezembro de 1881, a estação ferroviária de Massapê constituída do ramal interligando Sobral, Massapê, Senador Sá, Uruoca, Martinópolis, Granja e Camocim, recebeu um pomposo cortejo Real com fidalgos integrantes da nobreza Imperial e foi um reboliço só, literalmente o fim do mundo para os nossos pacatos e rudes habitantes, a maior parte sem formação escolar, onde reinava a Santa Ignorância. Eram os sinais de um Novo Tempo. Do progresso que se avizinhava. Relatos dão conta que, quando o “monstro sagrado” de ferro e aço deu sinais da sua chegada com o apito estridente, um barulho infernal e enormes nuvens de fumaça, ainda lá por onde atualmente se situa o bairro Nossa Senhora de Fátima (Mocós), a multidão silenciosa, na sua grande maioria composta de homens do campo, caboclos, sertanejos, remanescentes de índios e de escravos, serranos e matutos, ficou pávida e atônica, sem saber o que fazer. Uns tentavam correr, mas as batatas das pernas pesavam; outros, gritar ou chorar não podiam, uma vez que, perplexos, perderam a voz. Só restou uma saída: rezar e pedir a Deus compreensão para o que estava acontecendo. Só um milagre tiraria dalí vivo, sã e salvo aquele ajuntamento de gente humilde do povo. De sorte que, compunha a comissão de frente, as autoridades composta do intendente municipal de Licânia (depois Santana do Acaraú), acompanhado do juiz de paz, delegado municipal e o vigário, que tentavam à todo custo acalmar os aterrorizados. Mas não teve delegado, intendente e nem juiz que dessem jeito. O medo contagiou a multidão corajosa, mas acanhada, que se atreveu comparecer àquele ato inaugural jamais visto, por mera curiosidade humana. Os temerosos e receosos (geralmente mulheres e crianças) ficaram trancafiados em suas casas, rezando e aguardando ansiosamente a soberana misericórdia divina, pois o dia do juízo final, como assim prenunciava a vã filosofia popular, estava prestes a chegar. Mas quem controlou mesmo aquele clamor instalado, foi o santo padre, que, no exercício da sua dignidade sacerdotal, por medida de prudência, não lhe restou outra alternativa, senão, concitar os presentes, evitando tumulto generalizado, um vexame no então pacato Distrito de Paz pertencente a Santana do Acaraú (desmembrado politicamente em 25/09/1897, por meio da lei estadual nº 398, passando, assim, de Distrito de Paz à categoria de vila, a qual deram o nome de Vila de Serra Verde, depois Massapê, com instalação do município em 5 de fevereiro de 1898), para que todos fizessem uma saudação respeitosa e venerável, ajoelhassem ao chão de terra batida como forma de submissão, elevassem as mãos aos céus em deferência, fechassem os olhos em respeito marcado pelo temor, estendessem a mão direita com fé e devoção, retirassem o chapéu da cabeça simbolizando a humildade franciscana e, em reverência pelas coisas sagradas, pedissem uma graça divina coletiva àquela geringonça inglesa chamada Maria Fumaça, que puxava com uma força descomunal, os vagões do trem Real lotados de ilustres convidados especiais. E assim foi feito, há exatamente 133 anos, época que se amarrava cachorro com lingüiça, ou seja, no tempo da besteira, onde não existia automóvel, rádio, bicicleta, TV, máquina fotográfica, imaginem um enorme trem, nossos antecessores, com uma fé inabalável e confiança infantil e infinita em Deus, em coro, a uma só voz e ao mesmo tempo, fizeram ecoar uma sonora e histórica frase: “Abença, Maria Fumaça!!! ”.
Flagrante da última viajem do trem Camocim - Sobral, via Massapê. *31/12/1881  +24/08/1977 (96 anos) – No último apito o povo chorou.
Fotografia – fonte: Isabel Aguiar.
Ferreirinha é historiador e ex-assessor técnico da secretaria de Cultura, Juventude, Desporto e Lazer de Massapê.
Do livro: Histórias & Causos com Casos & Estórias de Massapê.
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