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30 de janeiro de 2014

2º ARTIGO: "AS RUPTURAS DO PODER POLÍTICO CEARENSE NOS ÚLTIMOS 50 ANOS"

Advirta-se não se tratar o presente artigo de mais uma análise da maldição - criador versus criatura

O coronelismo “moderno” no Ceará iniciou-se em 1963 e sobreviveu até 1982, sob a unção do Regime Militar. O primeiro e o último Governador desse ciclo histórico, Virgílio Távora formou ao lado de César Cals e Adauto Bezerra um triunvirato aparentemente invencível. Aliança essa que lhes permitiu o revezamento eficaz no poder por 20 anos, apesar das divergências. Forçoso é reconhecer-se que tanto a crítica como a reverência a esse período se igualam: os críticos mencionam o empreguismo, a troca de favores  e o clientelismo; os reverenciadores  afirmam  que as raízes do desenvolvimento econômico cearense estão aí fincadas, além do que os chefes  políticos receberiam um tratamento mais personalizado.

Nessa esteira, reforce-se que  1982 é considerado  o marco final desse ciclo, como  também é verdade que, mesmo assim,  o   sopro do coronelismo avança sobre esse limite, posto que Gonzaga Mota (1983-1986),  o sucessor dos coronéis,  chega ao Palácio da Abolição sob suas bênçãos. No entanto, rompe com os mesmos posteriormente, formando um hiato que ainda não se pode chamar de ruptura. Só na sequência, já na onda da Abertura Política, quando Mota incentiva e lança na política o jovem empresário Tasso Jereissati, e com a vitória desse último, vê-se sepultado definitivamente  o ciclo dos coronéis no Ceará.

Observe-se que, após certo período de transição (o hiato), ocorre com Tasso, em 1986, a primeira ruptura do poder político cearense, desde 1963. No entanto, deve-se considerar também que talvez isso não fosse possível, se o mesmo não recebesse o apoio do então Governador Gonzaga Mota, o  patrocinador estatal.

 Com Tasso, inicia-se uma nova era hegemônica no Ceará, que vai  de 1987 a 2006, durante, por tanto, outros 20 anos. Assim, por sucessivas eleições, ele ditou o ritmo da política cearense de tal modo que era tido por muitos como um político imbatível a exemplo dos coronéis, jamais perderia uma eleição.  Não se diga que perdeu as eleições de 2006, a do fechamento do seu ciclo, pois o tassimo ultrapassa esse limite, exercendo influência no governo estadual até 2010, quando efetivamente é derrotado para o Senado.

Ainda na mesma trilha, em nome do momento histórico, deve-se revisitar o ano de 2006 com mais vagar, pois aí pode ser encontrada a segunda ruptura do poder político cearense, nesse longo período de cinco décadas. Portanto, no ano em destaque, Tasso exigiu que Lúcio Alcântara não se recanditasse a governador e apoiasse Cid Gomes. Lúcio recusou-se e rompeu com Tasso. Contrariado, Tasso fez campanha camuflada para Cid em todo o interior do estado. Cid como se sabe venceu as eleições.

 Observe-se que a segunda ruptura do recorte em apreço talvez não fosse possível, se assim Tasso não o quisesse. Sem o apoio de Tasso, o controlador da maior máquina partidária da época – o PSDB - Lúcio esvaziou-se eleitoralmente. Esse episódio, só a título de argumentação, teve tanto impacto que poderia mesmo comparar-se ao fato impensável de,  repentinamente,  Ciro Gomes resolvesse  apoiar uma chapa contrária a do seu irmão Cid  nas eleições que se aproximam.

    Enfim, chega-se a 2014, e o jogo político cearense está eminentemente truncado, mas mesmo assim é perceptível que duas pré-candidaturas ao Palácio da Abolição estão postas momentaneamente: a governista - a do Deputado José Albuquerque; e a que ainda sonha em ser governista - a do Senador Eunício Oliveira. E aí, nesse passo, surge a seguinte indagação: é possível a terceira ruptura? Pode até parecer fácil responder tal inquietação, por não existir, nem mesmo simbolicamente um Gonzaga Mota (1986) ou um Tasso Jereissati (2006), como patrocinador de uma latente terceira fratura. Mas objetivamente não é. Em nome do debate, aqui, ainda nesse ponto, mesmo  com outras letras, repisa-se a indagação anterior: o Cidismo pode ruir? Não se pode saber a resposta de plano. Caso isso ocorra, seria a primeira ruptura sem a presença de um Governador de Estado ou de um controlador de uma máquina partidária até então arrasadora. Aí sim tal evento seria mesmo renovador.

     Em tempo, há-se de lembrar que o Cidismo só tem oito anos e os dois ciclos anteriores duraram vinte. No entanto, deve-se perceber também que os tempos são outros e falta ao homem comum o poder de prever a história. 
João Tomaz Neto 
Advogado e Professor

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