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18 de setembro de 2012

A SAGA DE MILTON & CLÉA

Para narrar o romance de Milton & Cléa é necessário retornarmos ao tempo para que tenhamos uma real situação daquele trágico e infeliz incidente. Abordaremos, em síntese, três aspectos de Massapê: sua história, sua formação eclesial e sua evolução política. O primeiro fator de fixação populacional do povoamento de Serra Verde (Massapê), foi o retorno e investimento dos “Paroaras” (cearenses que migraram para a Amazônia fugindo da seca de 1877 e trabalharam no primeiro ciclo da borracha, retornando após uma década (1887), bem afortunados. Massapê já contava com duas escolas primárias, tendo como fundadores os professores João Capristano de Vasconcelos e Arminda de Araújo. O segundo fator de fixação da população foi a construção da Estrada de Ferro, interligando as cidades de Sobral, Massapê, Senador Sá, Uruoca, Martinópolis, Granja e Camocim, com a inauguração da estação ferroviária de Massapê em 31 de dezembro de 1881. Em termos de apoio eclesial, tem-se na pessoa do padre Diogo José de Souza Lima, o edificador da 1ª capela, cujo orago dedicou-se à Santa Úrsula. O patrimônio eclesiástico, contendo as dimensões exigidas nas Sacras Ordenações, teve como doadora a senhora Úrsula Balbina, mãe do vigário-construtor. A elevação da Capela à condição de Igreja-matriz e, concomitantemente à Freguesia, deu-se conforme Provisão de 22 de junho de 1918, assinada pelo Bispo de Fortaleza, D. Joaquim José Vieira, sendo o seu primeiro Vigário, o Padre Antonio Cândido de Melo. A elevação do povoado à categoria de Vila provém da lei nº 398, de 25 de setembro de 1897, com o nome de Vila de Serra Verde, tendo sido instalada em 5 de fevereiro de 1898 com elevação à categoria de município, ou seja, se emancipando politicamente, tendo como 1º Intendente o cidadão João Adeodato Carneiro. “Intendente” é uma designação que até início do século XX se deu aos chefes do poder executivo municipal, hoje prefeitos. Dia 05 de fevereiro de 2012 Massapê comemorou seus 114 anos de emancipação política. O terceiro fator de fixação da população, foi a construção do açude Acaraú-Mirim (1901/1907) no distrito Ipaguaçu-Mirim distante 9 km de Massapê, que chegou a empregar nas frentes de serviços do governo federal cerca de cinco mil trabalhadores. Milton (José Milton Carneiro) um jovem rapaz de 18 anos de idade, que namorava Cléa (15 anos), pretendia um dia se casar. Em 1917 no sentido de conseguir recursos financeiros para garantir o seu matrimônio com Cléa, à convite do seu irmão João Milton, um Paroara que havia retornado da Amazônia em 1887, foi arriscar a sorte juntamente com o irmão (este já com cinqüenta e oito anos), trabalhando no segundo ciclo da borracha. Após um ano de trabalho árduo na Amazônia, numa fatídica noite mal dormida, Milton teve uma premonição por meio de um sonho, que havia sido traído pela namorada. E o que é pior: ela foi deflorada. Mais que um sonho, um pesadelo, que foi virando uma bola de neve, ao ponto de não mais conseguir trabalhar, não lhe restando outra alternativa, senão, retornar para Massapê, tendo em vista que o local onde trabalhava não tinha acesso aos meios de comunicação, à época somente os Correios. E se tivesse, naquela época para enviar uma correspondência do Amazonas ao Ceará, demoraria em média quinze, vinte dias para chegar até ao destinatário, com mais igual tempo para a confirmação ou não daquele sonho, acumulando, mais de um mês, portanto, muito tempo que o jovem rapaz, já bastante alucinado, não poderia esperar. Cléa, uma jovem muito bonita, que amava Milton, foi assediada por um rapaz bem mais velho que ela, ao ponto de ter um relacionamento curto, uma espécie de namorinho que não vingou. Para convencer Cléa e conquistar definitivamente o seu coração, o rapaz usava de subterfúgios, alegando que Milton não a amava tendo em vista que passado um ano ele sequer mandou-lhe uma carta; que ele, Milton, iria fazer o mesmo que o seu irmão João Milton fez, passou dez anos na Amazônia sem dá notícias; que ele àquela altura já teria se amancebado com uma bela índia, ou quiçá, teria sido ele devorado pelas onças, etc. Uma vez assediada mas não convencida dos galanteios de mal gosto do moço, Cléa rompeu definitivamente aquele seu namorinho, que tinha o aval dos seus pais. De profunda formação católica, Cléa que freqüentava semanalmente a igreja, para tirar o peso da consciência, se arrependeu em confessionário diante do padre. Premeditando um crime passional, Milton de posse dos parcos recursos que conquistou, comprou um revólver e foi ao encontro de Cléa, que, ao ser indagada da sua premonição, a confirmou em termos, pois continuava virgem e disse que tudo não passou de uma simples paquera. Aos prantos e de joelhos pediu o perdão do seu namorado, redimindo-se dos seus pecados. Ela sabia do ciúme doentio do rapaz que há pouco tempo mantinha relacionamento, portanto, conhecia muito bem a sua personalidade. O que ela não sabia era dos seus planos diabólicos. Foram assistir uma missa matinal, e ao retornarem para a residência de Cléa, sem nenhuma discussão e aparentemente de bem com a vida, Milton num gesto de loucura, sacou da sua arma e disparou um tiro certeiro na cabeça da sua namorada que teve morte instantânea. Em seguida, foi até uma barbearia próxima à casa de Cléa, se apoderou de uma navalha sangrando-lhe no pescoço, atingindo a veia jugular, tendo morte lenta e agonizante, dando um triste adeus àquele outrora lindo romance; àquela linda história de amor, de dois jovens que sonhavam um dia se casarem, criarem seus filhos e viverem felizes para sempre. O cortejo funeral e enterro foram coletivos, e seus corpos foram depositados em duas urnas (uma inferior e a outra superior) de um túmulo que até hoje resiste ao tempo, localizado no cemitério São José. Representando o triste episódio, um anônimo arquiteto foi feliz ao reproduzir sobre o túmulo, um tronco de árvore decepado com dois galhos opostos também decepados, simbolizando as duas vidas prematuramente ceifadas, bem como, a não constituição da família. A saga de Milton & Cléa comoveu por demais a opinião pública massapeense, que ficou, deveras, consternada por durante muito tempo.
Antes da restauração
Depois da restauração
Do livro: Histórias que me contaram de Massapê – autor: Ferreirinha.
NOTA DE ESCLARECIMENTO: A TV Cidade, afiliada da Rede Record de Televisão, apresentou sábado passado, o programa semanal “Riquezas do Ceará”, ocasião que enfocou a cidade de Massapê, mostrando os pontos turísticos, a culinária, a arte e a cultura do nosso povo. Evidentemente que, ciceroneada por um representante da secretaria de Cultura, muita coisa deixou de ser mostrada, dentre as quais, maldosamente, a Galeria de Artes & Antiquário de Massaspê – um espaço artístico e cultural, com um acervo de mais de 200 itens catalogados, com visitação pública gratuita. Cruz da Joana (história e milagres atribuídos); Gruta da Nega; o Monumento Histórico, Cultural e Religioso dos Arrudas; as fachadas de dezenas dos nossos casarões e solares, centenários e históricos, com arquitetura em estilo Colonial, (por amostragem, o prédio que abriga o Educandário Nossa Senhora do Carmo – ao meu ver, a jóia rara da arquitetura Colonial massapeense); a Fazenda-museu Arraial; Os Teixeiras – remanescentes de quilombolas; o Olho D’agua da Racha que em 1995 foi engolido pelas pedreiras; os dois tradicionais Chitões de Salão (o do Centro Social Massapeense com 78 anos de tradição, em 2012 sem edição, e o Chitão dos Pobres de Massapê com 64 anos de edições ininterruptas); contação de estórias e lendas folclóricas (exemplo, “Massapê: Terra de Comedor de Defuntos”, que tem como protagonista Zé Podoia), etc., infelizmente não foram enfocados, ainda que superficialmente. A própria Coluna da Hora – um ícone da identidade cultural dos massapeenses, foi vista apenas como pano de fundo. Ninguém é dono da verdade. Abordado pelo repórter da referida TV, o inocente e humilde coveiro, ao qual eu tenho respeito e consideração, mas não quero servir dos seus préstimos tão cedo, no uso de suas atribuições profissionais, no interior do cemitério São José, concedeu entrevista dizendo que: “o túmulo de Milton e Clea não é aquele pintado, e com os letreiros. Foi um rapaz que fez isso. O verdadeiro, é outro localizado ao seu lado”. Que absurdo. Devo dizer, que as declarações do funcionário público municipal são inverídicas e não têm fundamento, pois que, em nada afetam as minhas pesquisas, que sempre foram embasadas com dezenas de depoimentos de cidadãos de ilibada conduta social e reputação moral. Como é difícil promover cultura em uma cidade cujos gestores municipais agem com politicagem. Mas é isso mesmo. Um dia é da caça, o outro do caçador. O tiro foi mais uma vez certeiro e com gosto de vingança, não é doutor? Os atuais gestores municipais mais uma vez, evitaram a verdade. E por falar em evitar a verdade, lembrei-me de Abraão Lincoln, então presidente dos Estados Unidos, que recebia uma montanha de pedidos de emprego. Um candidato a certa função, empacou diante da seguinte pergunta: “Causa da morte do pai?”. Acontece que o pai, um famoso homicida, tinha sido julgado, condenado e executado à forca, em praça pública. O candidato pensou, pensou e acabou respondendo: “Meu pai estava participando de uma cerimônia pública, quando a plataforma cedeu e ele morreu”. Evitar a verdade sem mentir, é a arte que a maioria dos políticos brasileiros tenta praticar, inclusive, os atuais gestores do município de Massapê. Quiçá, com a Força do Novo Tempo, possamos resgatar a história da nossa cidade renegada pelo tempo da Idade da Pedra. “O Tempo, é o Senhor da Razão”, plagio velho adágio popular.
Ferreirinha – historiador e escritor.

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3 comentários:

  1. Parabéns Ferreirinha.
    Sou um jovem apaixonado pela historia da minha cidade, que têm que ser contadas, é uma pena que nossa cultura tenha se "acabado" de uma maneira que agente não consiga explicar.
    Hoje os jovens não se empenham em desenvolver suas habilidades naturais, pois sabem que não vão ter reconhecimento, e os poucos que desempenham não conseguem apoio algum. Outro dia eu estava reunido com uns amigos meus e o mesmo falou que foi atrás de ajuda com a secretaria de cultura (que sabemos quem é) e a mesma ao ser indagada respondeu o seguinte.
    "Meu filho, aqui só tem de Cultura o nome.
    Muito triste e desmotivante um fato desse, mais se DEUS quiser iremos reverter este quadro.
    Forte abraço.

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    1. Acrescentando, Massapê tem muito a mostrar ao mundo até, temos muitas coisas bonitas, muitos patrimônios que estão sendo deixados para trás.
      Javan Juvencio...

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  2. Até que enfim uma estória boa pra contar no meio de tanta esculhambação que é a politica de massapê, apesar de no fim ser um pouco tendenciosa pra campanha, valeu apena a materia num momento tão hostil que está Massapê, temos que entender que a politica passa, mas Massapê com suas estórias e memória continua. e todos fazemos parte dela, louvavel a atitude de Ferrerinha, o triste é saber que um artista como esse, não tenha seu devido valor, vc está na minha lista Ferreirinha, se um dia eu tiver condições não terei medo de investir em vc pra divulgar a arte e cultura de Massapê. Terminando aqui pedindo mais respeito de ambos os lados, que Deus ilumine a todos e essa cidade.

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